O editor

O editor de Documentos Revelados é Aluízio Palmar, um sobrevivente.

Nasceu em maio de 1943, em São Fidélis, Estado do Rio de Janeiro. Em sua juventude estudou Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense e, devido à sua militância revolucionária não terminou o curso, foi preso e banido do país, apos ter sido trocado, juntamente com outros 69 presos políticos  pelo Embaixador da Suíça no Brasil . Depois de passar oito anos entre o exílio e a clandestinidade, voltou ao Brasil em 1979 apos a anistia politica e  deu início em Foz do Iguaçu a carreira jornalística que completou 34 anos.

Em 1979, trabalhou na revista Atenção e  no jornal Correio de Notícias, de Curitiba. Em 1980 trabalhou no jornal Hoje Foz e em dezembro desse mesmo ano fundou o jornal Nosso Tempo, conhecido por sua linha editorial de contestação à ditadura civil-militar imposta  à Nação em 1964.

Para entrar em contato:

45 9941 6969

ferreirapalmar@uol.com.br

aluiziopalmar@yahoo.com.br

 

 Agora eu entendo o Aluízio!

*Ronildo Pimentel

Foram necessários meses na estante para finalmente conhecer um pouco da verdade do Aluízio. Agora entendo por que ele se cerca de tantos cuidados no dia-a-dia, vinte anos depois da ditadura.

Demorou, mas finalmente cheguei a uma conclusão lógica, ou nem tanto, de uma pessoa que aprendi a admirar ao longo de nossa convivência. Estou falando do Aluízio Palmar, jornalista e agora escritor controverso, meio avesso aos dogmas da sociedade, que escolheu a Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai para habitar.

O local não poderia ser diferente. Aluízio passou uma vida percorrendo e correndo pela América do Sul de cabo a rabo, literalmente. Não pelo prazer de quem viaja com a família em lugares lindos e deslumbrantes. Fugia de sua história, de sua ligação com o passado ameaçado por uma sandice militar que dominou o continente por um longo período no século passado.

Agora sim, posso dizer que entendo o Aluízio Palmar e seu jeito insuspeito de suspeitar das coisas que o cercam. Aluízio foi um dos fundadores da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, última facção de guerrilheiros brasileiros que ousou usar armas contra a ditadura militar. Poderia ocupar este espaço falando das aventuras, desventuras e jogadas de pura sorte do guerrilheiro nos anos de chumbo da ditadura, mas isso tudo já está lá, no livro autobiográfico “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, editado pela Travessa dos Editores.

Cacete, foram necessários meses na estante para finalmente conhecer um pouco da verdade do Aluízio. Agora entendo porque ele se cerca de tantos cuidados no seu dia-a-dia, mesmo depois de 20 anos do fim da ditadura. Tudo bem, agora eu sei que são seqüelas do exílio, onde todos são suspeitos. Lembro quando visitamos o Aluízio em tempos de fartura, dele, claro, quando era secretário de Comunicação. Aqueles cuidados para saber se havia um gravador oculto, ou outra forma qualquer de registrar aquela conversa… por muitos anos cultivei um juízo torto do encontro.

Agora entendo o jeito meticuloso do Aluízio, depois de anos suspeitando de tudo, e de todos, a sua volta. Medo de cair numa emboscada que para muitos significou a morte. Mesmo hoje, Aluízio se sente inseguro, talvez imaturo diante de tantas novidades. Novidades, claro! Para quem passou tantos anos fugindo do passado, certamente não sobrou tempo para acompanhar o nosso tempo.

Nosso Tempo

Quando conheci o Aluízio, vi um homem frio e calculista e metódico no enfrentamento dos últimos resquícios da ditadura, isso lá nos idos dos anos de 1980. Nas mãos dele um impresso semanal, o histórico e contundente Nosso Tempo, algo meio antiquado para os dias virtuais de hoje, mas fonte de voz de quem vivia sob o manto da opressão e da repressão militar.

Nunca entendi muito o Aluízio, seu jeito de se esconder das coisas, de fugir da sociedade, mas agora, lendo suas memórias, posso entender por que ele não gosta de clichês vagabundos, hoje em voga nos meios sociais. Imaginar que alguém, que já pensou em suicídio no fundo de uma cela escura e sem vida, pudesse viver normalmente entre nós, foi algo que nunca imaginei antes de conhecer a verdade de um guerrilheiro.

Pior que esquecer tantos amigos perdidos durante a ditadura é saber que muitos amigos, os últimos membros da VPR haviam morrido e seus corpos jamais localizados. Com o fim do regime armado, Aluízio mergulhou numa busca quase que insana para reconstruir os últimos passos de seus últimos companheiros de guerrilha.

A pesquisa durou anos, décadas, mas finalmente terminou. Terminou como na emboscada que dizimou seus companheiros, executados por um pelotão fortemente armado dentro do Parque Nacional do Iguaçu. Aluízio finalmente desvendou o que denominou de último segredo da ditadura militar e agora pode dizer que também entende Aluízio.

Ronildo Pimentel é jornalista em Curitiba.