SEQUESTRO DO EMBAIXADOR ALEMÃO LIBERTOU 40 PRESOS POLÍTICOS DOS CENTROS DE TORTURA

MINISTÉRIO DA AERONÁUTICA

29junho1970

IV ZAÉREA

QG

DIVISÃO DE SEGURANÇA

ASSUNTO: ELEMENTOS BANIDOS DO TERRITÓRIO NACIONAL

ORIGEM: CISA RJ

DIFUSÃO UNIDADES DA ÁREA

DIFUSÃO ANTERIOR : EMAER -SNI/AC-CIE-CENIMAR- DSI/CI/DPF – DOPS/GB- DIS 1,2,3,4,5 E CISA BR

REFERENCIA : INFORME 360/CISA RJ, DE 24 JULHO70

INFO 265/QG4  

http://pt.scribd.com/doc/97447011e

O Seqüestro do Embaixador Alemão

O Brasil passava por uma ditadura militar que durou mais de 20 anos. Começou em 1964, com um golpe dos militares que depuseram o presidente João Goulart, e só terminou em 1985, quando um presidente civil subiu ao poder.

Até o ano de 1968, foram 4 anos de ditadura militar: grêmios estudantis fechados, a imprensa sem liberdade para falar o que queria, muita gente presa, casas invadidas, pessoas mortas… Mais foi no ano de 1968, que eles mostraram realmente a que vieram, e no dia 13 de dezembro de 1968 houve o “golpe dentro do golpe”. Foi o Ato Institucional Nº 5, que dava plenos poderes aos militares, proibindo a liberdade de imprensa, e não havia mais eleições no país. Dessa vez os milicos pegaram pesado mesmo.

Essa atitude revoltou os intelectuais, as pessoas mais inteligentes, homens e mulheres que amavam o seu país e não poderiam ver o Brasil sendo destruído dessa forma. Era repressão política e cultural. Eles abafavam qualquer forma de reivindicação, fechavam sindicatos, reprimiam passeatas e greves, espancando homens e mulheres que somente lutavam por melhores condições de vida, e estudantes que queriam grêmios livres, queriam poder se expressar e falar, gritar para todo mundo ouvir a opressão que estavam vivendo, porém o governo militar estava bem à vontade, mais felizmente eles encontraram resistência dentro desse regime podre que atrasou o Brasil por mais de 20 anos.

Homens e mulheres revolucionários, corajosos e patriotas, pegaram em armas para libertar o país dessa sangrenta opressão. Assim inicia-se a guerrilha urbana em nosso país. Foram vários grupos que lutaram conta a ditadura, mais 4 grupos merecem um destaque maior, são eles: ALN (Ação Libertadora Nacional) , esta fundada e comandada por Carlos Marighella, VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), que teve em Carlos Lamarca o seu maior ícone e comandante, MR8 ( Movimento Revolucionário 8 de Outubro), o MR8 na verdade foi uma dissidência do PCB ( Partido Comunista Brasileiro) na Guanabara, e teve grande repercussão quando em Setembro de 1969 seqüestraram em parceria com a ALN o embaixador americano Charles Burck Elbrick, e pra finalizar temos o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), que teve um grupo bem reduzido em São Paulo, mais eram de uma coragem revolucionaria incrível, pois foram responsáveis por muitas expropriações na cidade de São Paulo, eles também ajudaram a VPR a seqüestrar o cônsul japonês em março de 1970.

Assaltos a bancos, expropriações de armas em quartéis, assaltos a carros fortes eram formas de angariar dinheiro para financiar a luta, e as organizações estavam a todo vapor, porém a repressão não perdoava. Quando prendia alguém, não havia perdão, não havia clemência. Os presos políticos eram torturados de todas as formas, faziam barbaridades com eles nos porões da ditadura. A maioria das vezes os presos eram torturados para entregar os companheiros, mais muitas vezes também, o preso já tinha falado tudo o que tinha pra falar, mais mesmo assim eles não sossegavam, eles torturavam só pelo prazer de ver a degradação do ser humano, torturavam somente pelo prazer de humilhar, sem contar nos presos políticos que desapareceram há mais de 30 anos, e ainda estamos esperando uma satisfação do estado.

Muito bem! A VPR segue na luta, os meses vão se passando, e a repressão sempre apertando as organizações. Mais houve um mês que foi catastrófico para a VPR, esse mês foi Abril de 1970, o mês que deveria ser esquecido pela VPR, foram dezenas de prisões, aparelhos estourados, e militantes de muita importância mortos pela repressão.

Foram prisões em série, caíram com uma fileira de dominós, todos os dias prendia alguém diferente, ora simpatizante, ora militante, ora dirigente, a questão era que as prisões estavam abarrotadas de militantes da VPR, o próprio Lamarca estava cercado no Vale do Ribeira, realmente a situação era critica.

O grande problema é que não era “privilégio” só da VPR de ter aparelhos estourados e militantes presos e mortos. Depois do seqüestro do embaixador americano, a repressão passou a agir de uma forma intensa contra os grupos de esquerda que tentavam libertar o país das mãos dos militares. E aconteceu justamente o que temia o líder guerrilheiro Carlos Marighella. A repressão mostrou realmente do que era capaz, mostrou todo o seu poder de fogo e todo o aparato que estava a seu favor, e também mostrou aos guerrilheiros como estavam empenhados em acabar com todas as formas de resistência.

Um dos ícones da VPR o militante Juarez Guimarães de Brito morre em 18 de Abril de 1970, sua companheira Maria do Carmo Brito sobrevive, mais é capturada pela repressão. Maria do Carmo era da direção nacional da VPR. Ela como sendo uma das dirigentes tinha conhecimento de quase tudo dentro da organização e seu aparelho era uma espécie de QG onde tinham vários documentos, e foi revistando o seu aparelho que a repressão achou um detalhado plano para seqüestrar o embaixador da Alemanha, o Sr. Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben . Nesse documento, havia todo o plano para o seqüestro do embaixador e as primeiras letras dos nomes dos guerrilheiros que participariam da ação, entre eles estavam o próprio Juarez e Maria do Carmo. Havia seis militantes na lista, porém desses seis militantes somente dois estavam em liberdade.

Com o plano já sendo de conhecimento da repressão a VPR decidiu seqüestrar o embaixador do Japão, porem a ação foi interrompida pela presença de uma viatura da policia que estava exatamente no local do seqüestro. Então a VPR deu um golpe de mestre. Ela se decidiu de vez em seqüestrar o embaixador alemão. A VPR achou que como o plano já era de conhecimento da repressão, nem passaria pela cabeça deles que a VPR realmente realizaria o seqüestro. A VPR acertou em cheio ao tomar essa decisão.

Realmente a repressão nem imaginou que eles seriam ousados a esse ponto, porém eles foram.

Com a decisão tomada em seqüestrar o embaixador alemão, restavam apenas os levantamentos a serem feitos sobre o seu percurso diário, sua segurança, seus costumes… Os levantamentos para a realização do seqüestro foram feitos por Alex Polari, após vários dias observando os costumes do embaixador ele pôde constatar que a segurança do embaixador era realmente pequena. Era o carro da embaixada com o motorista, um segurança e o embaixador, mais um carro que o seguia como apoio com dois seguranças. Eles chegaram à conclusão que o seqüestro poderia ser realizado com grande sucesso.

Reuniram-se então em São Paulo, no inicio do mês de junho o comando da VPR, com Lamarca e Herbert Eustáquio de Carvalho, Joaquim Câmara Ferreira, dirigente da ALN, e Devanir Jose de Carvalho, dirigente do MRT. Estava tudo certo no Rio de Janeiro. E a ALN deu uma bela ajuda financeira de 40 mil cruzeiros, mais uma metralhadora INA e uma pistola 45, e os militantes Jose Milton Barbosa e Eduardo Collen Leite (BACURI), esse que comandaria a ação.

Enquanto isso no Rio a VPR se preparava para a ação roubando os carros para a realização do seqüestro e o aparelho para guardar o embaixador já estava alugado há algum tempo, e era bem discreto, lá moravam Gerson Theodoro e Teresa Ângelo, ambos da VPR.

Tudo estava pronto, e a nova “Unidade de Combate Juarez Guimarães de Brito” (UC/JGB ) tomou o dispositivo da ação no dia 11 de junho de1970, acopa do mundo já havia começado e o país estava envolvido num clima de futebol, que como podemos ver que até hoje envolve os brasileiros de uma forma muito intensa, e naquela época não era diferente. Eram 19:00 h e todos já estavam em suas posições. Von Helleben, saia da embaixada com o carro oficial e a variant gelo atrás com dos dois seguranças. O seqüestro ocorreu próximo à residência do embaixador , na confluência da Rua Cândido Mendes com a Ladeira do Fialho . O carro vinha se aproximando, foi então que Jesus Paredes Soto, deu um sinal pra Jose Mauricio Gradel, então Jose Mauricio com uma pick-up Willys, bateu no carro da embaixada, enquanto isso Sonia Eliane Lafoz e Jose Milton Barbosa “namoravam” numa escadinha, bem perto do local do seqüestro, na mesma hora em que Jose Mauricio batia no carro da embaixada, Jose Milton disparou uma rajada de metralhadora na variant gelo que seguia atrás do carro do embaixador, enquanto isso Eduardo Leite e Herbert Eustáquio tiravam o embaixador do carro e o colocavam em outro carro afim de levar o mesmo ao local do transbordo, onde esperavam Gerson Theodoro, Alfredo Sirkis e Mauricio Guilherme. Tudo quase certo. Restava agora deixar o local do seqüestro. Foram 3 carros em fila indiana, saindo em alta velocidade, o primeiro carro seguia com Sonia Eliane Lafoz, Roberto das Chagas e Alex Polari, o carro do meio seguia com Eduardo Leite, Jose Roberto, Herbert Eustaquio e o embaixador, e o ultimo da fila, seguia com Jesus Paredes Soto, Jose Mauricio Gradel e Jose Milton Barbosa. Ficou no local a pick-up Willys, o carro da embaixada, com um segurança morto, a variant gelo com os dois seguranças feridos, e panfletos ao chão assinados pelo Comando Juarez Guimarães de Brito com um esclarecimento ao povo brasileiro.

O Opala azul com o embaixador foi para o local do transbordo, onde os 3 militantes esperavam numa Kombi verde-claro, chegando ao local eles colocaram o embaixador numa caixa de madeira e o levaram para o aparelho, na rua Juvêncio de Menezes, nº 535 no bairro de Cordovil, Rio de Janeiro.

As 21:00h a Kombi chegava ao aparelho, quem dirigia era Mauricio Guilherme, que estava muito nervoso e cometeu diversas barbeiragens no caminho do transbordo até o aparelho, inclusive dando uma raspada num ônibus, Eduardo Leite, chamava a sua atenção o tempo todo e mandava ter calma, mais não adiantou muito não, segundo Alfredo Sirkis ele era bem barbeiro mesmo, porém um militante aguerrido. No aparelho esperavam Teresa Ângelo e Manoel Henrique Ferreira, chegaram ao aparelho descarregaram a “mercadoria” e entraram no aparelho, e lá ficaram: Gerson Theodoro, Alfredo Sirkis (para servir de intérprete), Eduardo Leite, Manoel Henrique e o embaixador.

Ao chegarem ao aparelho o embaixador logo foi alojado. Foi servido para ele um chá com salgadinhos. Era sempre com Alfredo Sirkis que ele conversava em inglês.

Nessa mesma madrugada Eduardo Leite, datilografava o Comunicado nº 1, com as seguintes exigências: A libertação de 40 presos políticos, a divulgação de um manifesto em diversos veículos de comunicação e a divulgação pela rádio nacional de comunicados entre as regionais.

O seqüestro durou 5 dias, e a repressão cedeu fácil as exigências da VPR, nesses 5 dias somente Teresa Ângelo saia de casa, para deixar os comunicados para os jornais, nesses dias foram 6 comunicados enviados as autoridades e foram trocadas diversas mensagens entre as regionais da VPR, e também foi enviada a lista com o nome dos 40 presos a serem trocados pelo embaixador, dentre os 40, 20 presos eram da VPR: Almir Dutton Ferreira, Altair Luchesi Campos, Carlos Minc Baumfeld, Darcy Rodrigues, Dulce de Souza Maia, Edmauro Göpfert, Eudaldo Gomes da Silva, Flávio Roberto de Souza, Ieda dos Reis Chaves, José Araújo de Nóbrega, José Lavecchia, José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, Ladislau Dowbor, Liszt Benjamin Vieira, Maria do Carmo Brito, Melcides Porcino da Costa, Oswaldo Antônio dos Santos, Oswaldo Soares, Pedro Lobo de Oliveira e Tercina Dias de Oliveira. O outros 20 foram mesclados, tinha militante do MR8, FLN, ALN, eram eles: Aderval Alves Coqueiro, Ângelo Pezzuti da Silva, Apolônio de Carvalho, Carlos Eduardo Fayal de Lira, Carlos Eduardo Pires Fleury, Cid de Queiroz Benjamim, Daniel Aarão Reis, Domingos Fernandes, Fausto Machado Freire, Fernando Paulo Nagle Gabeira, Jeová Assis Gomes, Joaquim Pires Cerveira, Jorge Raimundo Nahas, Marco Antônio Azevedo Meyer, Maria José Carvalho Nahas, Maurício Vieira Paiva, Murilo Pinto da Silva, Ronaldo Dutra Machado, Tânia Rodrigues Fernandes e Vera Sílvia Araújo Magalhães.

Aos cuidados de Tercina Dias de Oliveira, seguiram quatro menores: Samuel Dias de Oliveira, Luiz Carlos Marques do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.

Essa lista foi boa em si, mais houve 3 injustiças nela, três nomes que deveriam estar na lista e não estavam, são eles: Cláudio Torres, militante do MR8 que participou do seqüestro do embaixador americano, todos os outros militantes que participaram do seqüestro do Elbrick, que estavam presos estavam na lista menos Cláudio. Celso Lungaretti, militante da VPR que foi falsamente acusado de ter delatado o campo de treinamento no Vale do Ribeira. Celso foi inocente e conta sua história no livro Náufrago da Utopia. Wellington Moreira, que agüentou durante 4 dias uma tortura intensa. O teto que a VPR dava para poder falar era de 24 horas, ele agüentou muito mais do que foi exigido, então ele esperou 4 dias para falar, pois todos já sabiam que a sua queda era certa, foi ai que ele falou de um ponto semanal que tinha com Juarez Guimarães de Brito, porém a queda dele já era de conhecimento da organização, e ele raciocinou que Juarez sabendo de sua queda não ia até o local do ponto, só que ele não sabia que Juarez foi ao ponto, viu que era uma emboscada e ainda assim cometeu a estupidez de tentar libertá-lo, a repressão percebeu que Juarez estava lá, cercou o carro dele e ele se suicidou com um tiro no ouvido, foi ai que sua companheira foi presa. A VPR simplesmente como “castigo” pela morte de Juarez não incluiu o nome de Wellington na lista dos prisioneiros a serem libertados pelo embaixador.

O seqüestro fluía com um rio, tudo dando certo, os 40 presos já estavam na Argélia, mais quando Mauricio Guilherme foi buscar a Kombi para soltar o embaixador ocorreu um problema. Ele tinha deixado a Kombi num local proibido e quando foi buscá-la ela não estava lá. Foi guinchada pelo Detran. Nesse meio tempo o embaixador demora mais dois dias no cativeiro. Ele chegou a discutir com Sirkis e chamou o grupo de desorganizado.

Mais logo foi encontrado outro veiculo e o problema se resolveu, Von Holleben foi libertado e a VPR voltou a fazer a revolução.

Participaram da ação vários militantes, a sua maioria foi morta pela repressão, com destaque para a morte de Eduardo Leite, que foi uma das mais cruéis cometidas pela repressão, isso já foi assunto de outro artigo que escrevi há alguns dias.

Escrevemos sobre essa ação para poder informar você querido leitor, de que o nosso país, teve pessoas das quais podemos nos orgulhar, pessoas que lutaram por um ideal, viveram por um ideal e morreram por um ideal. O vencedor da guerra todos nós sabemos quem foi, mais essa batalha a esquerda ganhou de lavada.

Os 40 presos estavam livres das prisões e das torturas, mais ficaram 9 anos afastado de sua pátria, alguns deles retornaram somente em 1979 na anistia. Eu nem tento imaginar o que esses 40 companheiros passaram no exílio, de certo que sofreram bastante, porém o certo é que eles nos deram uma grande lição ao lutarem por um Brasil livre.

Autor: Ciro Campelo Oliveira – 25 anos – Residente em Vitória – ES
Contato: ciro_campelo@hotmail.com


Um comentário

  1. cristiane disse:

    Grande Comandante LIA!!
    “tia” DADÁ inesquecível na cadeira de rodas- IN MEMORIAM
    Elas eram F***!!!

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