Cerveira e Rita sequestrados na Argentina e levados para a morte no Rio de Janeiro

 

Major Joaquim Pires Cerveira

Militante da FRENTE DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (FLN).

 Nascido a 14 de dezembro de 1923, em Santa Maria, Estado do Rio Grande do Sul, filho de Marcelo Pires e Auricela Goulart Cerveira.

 Desaparecido desde 1973, quando tinha 50 anos de idade.

 Casado, tinha filhos. Major do Exército Brasileiro, passou à reserva pelo ato institucional n° 1, de 1964. Conforme documentos encontrados nos arquivos do antigo DOPS/SP foi preso no dia 21 de outubro de 1965 e encaminhado à 5ª Região Militar e entregue ao Coronel Fragomini. Em 29 de maio de 1967 foi absolvido pelo Conselho Especial de Justiça da 5ª Auditoria, da denúncia do processo 324, por crime de subversão.

 Foi preso novamente, em 1970, com sua mulher e o filho, que foram torturados no DOI-CODI/RJ.

 Foi banido do país em junho de 1970, quando do seqüestro do embaixador da Alemanha no Brasil, viajando para a Argélia com outros 39 presos políticos.

 Preso em Buenos Aires em 11 de dezembro de 1973, juntamente com João Batista Rita, por policiais brasileiros, provavelmente comandados pelo delegado Sérgio Fleury.

 Ambos foram vistos por alguns presos políticos no DOI-CODI-RJ quando chegavam trazidos por uma ambulância. Estavam amarrados juntos, em posição fetal, tendo os rostos inchados, esburacados e repletos de sangue na cabeça.

 A nota do Ministro da Justiça Armando Falcão esclarecendo os casos de desaparecimentos no Brasil, dava conta que Cerveira estava banido do País, nada esclarecendo sobre seu paradeiro.

 Em matéria publicada no jornal “Folha de São Paulo”, baseada em entrevista com um general de responsabilidade comprovada dentro dos órgãos de repressão política, a morte do Major Cerveira e outros 11 desaparecidos é confirmada.

 No Arquivo do DOPS/PR, o nome do major Cerveira foi encontrado numa gaveta com a identificação “falecidos”.

Grupo Tortura Nunca Mais/RJ

 Palavras da filha, Neusah Cerveira

“Às 18 horas do dia 5 de dezembro de 1973, meu pai Joaquim Pires Cerveira (…) se dirigiu a um encontro com seu companheiro de Organização (…) João Batista de Rita Pereda.”   

 “Atropelado e seqüestrado com Pereda no centro de Buenos Aires pela Operação Condor, foram entregues à ditadura brasileira.” 

 “Foi assassinado em 13 de janeiro de 1974 no DOI-Codi da Barão de Mesquita (RJ), tornando-se um desaparecido político.” 

 “Dali para frente, a vida se resumiu na busca da verdade e dos seus restos mortais.”   

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA DO BRASIL

 Preidente Lula,

 “Você recebeu tão carinhosamente a Ingrid Betancourt, condenou veementemente os seqüestros.”Durante seu seqüestro, como ela mesmo disse, você foi incansável na luta por sua libertação.”Por que não faz o mesmo por nós, seus compatriotas?”

 Por que não usa a mesma veemência para obrigar os terroristas da ditadura a indicar o que fizeram os corpos dos nossos parentes seqüestrados pela Operação Condor, barbaramente assassinados e desaparecidos?”

 Lembro a Sua Excelência que foi um compromisso seu de campanha resolver definitivamente essa questão.”

 Eu cobro esse compromisso! É a hora, presidente! Até quando levará o nosso sofrimento? Basta uma palavra sua para resolver essa questão.”

 Como deseja entrar para a História do Brasil: como o presidente que traiu seus compromissos com seus companheiros mortos ou como um estadista que não ficou de joelhos perante a escória do Exército brasileiro?”

 E então, presidente? Não somos Ingrid. Alguns de nós estão morrendo de velhice, de seqüelas de tortura e de sofrimento inimaginável por uma espera que não acaba.”

 Lembro a Sua Excelência que sua vitória, em grande parte, está pavimentada sobre o cimento dos corpos e da resistência de nossos parentes e da nossa dor, mas, sempre, do nosso apoio.”

 O que falta, presidente? Você é o chefe supremo das Forças Armadas do Brasil, dê a ordem que o transformará verdadeiramente num estadista! Ou entre para a História como Pilatos.”

 Espero uma resposta, sou brasileira, tenho mais direito ao seu apoio do que a Ingrid.” 

 (Neusah Cerveira)  

 

 

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