“MINHA FAMÍLIA SE DILACEROU. MEU IRMÃO TORTURADO, MORTO,CORPO NÃO ENCONTRADO.MINHA MÃE ASSASSINADA NUMA PANTOMINA DE ACIDENTE!

“Minha família se dilacerou. Meu irmão torturado, morto, corpo não sabido. Minha mãe assassinada, numa pantomima de acidente, só desmascarada 22 anos depois.” Hilde Angel (Irmã de Stuart e filha de Zuzu Angel)

Segundo a versão mais conhecida de sua morte, dada por Alex Polari, que se encontrava preso no mesmo local e assistiu da janela de sua cela, Stuart foi amarrado a um carro e arrastado por todo o pátio do quartel. Em alguns momentos entre risos e chacotas, era obrigado a colocar a boca no escapamento do veiculo para aspirar os gases emitidos.

Polari ainda conta na carta, que foi remetida a Zuzu Angel e foi entregue no Dia das mães, que após ser desamarrado, Stuart foi deixado abandonado no chão, com o corpo já bastante esfolado onde seguiu clamando por água noite adentro.

Stuart foi casado com Sônia Morais Angel Jones, presa, torturada e morta dois anos depois. Sonia foi estuprada com um cassetete e depois de torturada, teve seus seios arrancados a alicate. Por fim, recebeu um tiro de misericórdia na nuca. Foi no dia 30 de novembro de 1973. Ela tinha 27 anos.

A revelação da Comissão Nacional da Verdade (CNV) de que um crânio encontrado no Rio é de Stuart fecha um ciclo de angústia na vida de Hildegard Angel e Ana Cristina Angel, suas irmãs. Elas vão poder realizar o desejo da mãe, que lutou até a morte em 1976, para reaver o corpo do filho e enterrar seus restos mortais com dignidade.

“É uma realização muito grande. São 43 anos esperando. Agora quero cumprir a meta da minha mãe, que era enterrá-lo. Nós já sabíamos que meu irmão tinha sido assassinado pelo regime. Stuart não é uma ficção. Ficção quem fez foram os militares, que transformaram em terroristas os aterrorizados”, afirmou Hildegard.

Ousar lutar! Ousar vencer! Esquecer jamais!
Stuart Presente! Sonia Presente! Zuzu Presente!
Para honrar os que lutaram e tombaram por Democracia e Justiça!!

Stuart Edgart Angel Jones (1946+1971)

Stuart, que era filho do americano Norman Jones e de Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, figurinista e estilista conhecida internacionalmente, lutou contra a ditadura militar no grupo MR8.

Bicampeão carioca de remo pelo Clube de Regatas Flamengo na adolescência, ele foi estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possuía dupla nacionalidade, brasileira e americana.

Foi preso, torturado e morto por membros do CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica) em 14 de junho de 1971, aos 25 anos de idade. Foi casado com a também militante Sônia Morais Angel Jones, presa, torturada e morta dois anos depois e também dada como desaparecida.

Preso no bairro do Grajaú, perto da Avenida 28 de Setembro, na Zona Norte do Rio, Stuart foi levado pelos agentes à Base Aérea do Galeão para interrogatório. Os militares queriam a localização do ex-capitão Carlos Lamarca, chefe do MR-8 e então o grande procurado pelo regime.

Como se negou a falar, foi barbaramente torturado e espancado. Depois, foi conduzido ao pátio da base, vindo a morrer em consequência dos maus tratos.

Segundo a versão mais conhecida da sua morte, dada por Alex Polari, que se encontrava preso no mesmo local e assistiu da janela de sua cela, Stuart foi amarrado a um carro e arrastado por todo o pátio do quartel. Em alguns momentos entre risos e chacotas, era obrigado a colocar a boca no escapamento do veiculo para aspirar os gases emitidos.

Polari ainda conta na carta, que foi remetida a Zuzu Angel e foi entregue no Dia das mães, que após ser desamarrado o militante foi deixado abandonado no chão, com o corpo já bastante esfolado onde seguiu clamando por água noite adentro. De posse dela, a estilista denunciou o assassinato de Stuart – que tinha cidadania brasileira e americana – ao senador Edward Kennedy, que levou o caso ao Congresso dos Estados Unidos.

A revelação da Comissão Nacional da Verdade (CNV) de que um crânio encontrado no Rio é de Stuart fecha um ciclo de angústia na vida de Hildegard Angel e Ana Cristina Angel, suas irmãs. Elas agora planejam realizar o desejo da mãe, a estilista Zuzu Angel, que lutou até a morte em 1976, para reaver o corpo do filho: vão poder enterrar seus restos mortais com dignidade.

“É uma realização muito grande. São 43 anos esperando. Agora quero cumprir a meta da minha mãe, que era enterrá-lo. Nós já sabíamos que meu irmão tinha sido assassinado pelo regime. Stuart não é uma ficção. Ficção quem fez foram os militares, que transformaram em terroristas os aterrorizados”, afirmou Hildegard.

O capitão reformado Álvaro Moreira de Oliveira Filho revelou que o corpo de Stuart foi enterrado na cabeceira da pista da base da Aeronáutica de Santa Cruz, na zona oeste do Rio. O crânio, quase completo, havia sido localizado em 1976 num terreno no centro do Rio, porque a terra da pista fora revolvida numa reforma e levada para o centro pela construtora responsável pelas duas obras.

Stuart, segundo depoimentos de testemunhas, foi o único preso morto pela Aeronáutica naquela ocasião, entre vários outros aprisionados. Sua morte causou a transferência de todos os presos das celas do CISA para outros lugares. No fim daquele ano, toda a cúpula da Aeronáutica foi substituída, devido às pressões causadas pela incessante procura e denúncias do desaparecimento de Stuart por sua mãe, Zuzu Angel, usando a imprensa no Brasil e no exterior.

Até o ano de sua morte (1976), Zuzu, a mãe de Stuart, peregrinou pelo poder militar tentando conseguir explicações e informações sobre o corpo do filho, oficialmente dado como desaparecido.

Sua campanha chegou ao mundo da moda, na qual tinha destaque, com desfiles de coleções feitas com roupas estampadas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos. O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho. Zuzu chegou a realizar em Nova York um desfile-protesto, no consulado do Brasil na cidade.

Usando de sua relativa notoriedade internacional, ela envolveu celebridades de Hollywood que eram suas clientes, como Joan Crawford, Liza Minnelli e Kim Novak, em sua causa, e durante a visita de Henry Kissinger, então secretário de estado norte-americano, ao Brasil, chegou a furar a segurança para entregar-lhe um dossiê com os fatos sobre a morte do filho, também portador da cidadania americana.

Zuzu morreu em 1976, num suspeito acidente de automóvel no bairro de São Conrado, Rio de Janeiro, sem jamais conseguir descobrir o paradeiro do corpo de Stuart Angel.

Em 1998, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos julgou o caso sob número de processo 237/96 e reconheceu o regime militar como responsável pela morte da estilista.
Sônia Morais Angel Jones

Sônia nasceu no dia 9 de novembro de 1946, em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul. Seus pais, João Luiz de Moraes, militar que chegou a tenente-coronel, e Clea Moraes, sempre descrita como uma pessoa extrao-dinária. Ambos dedicaram suas vidas à preparação educacional de jovens à universidade.

Alegre e destemida, Sônia Angel dedicou sua juventude à luta contra à ditadura militar. De 1968 a 1973, foram oito anos de muitas atividades políticas, quase todos vividos na clandestinidade e dedicados à luta contra ditadura militar.

O contato de Sônia com as idéias revolucionárias começou no ano de 1966, quando ingressou no curso de economia da Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ). Já em seu primeiro dia de aula, foi eleita representante de turma. Sua liderança despontava naturalmente, pois era uma jovem que nunca escondeu seu amor à vida, transmitindo muita alegria com o carisma de sua personalidade divertida e espontânea. Gostava de viajar, namorar e ir a festas, vivendo sua juventude com plenitude e vigor.

Foi, também, na Faculdade de Economia que Sônia conheceu o jovem Stuart Angel Jones, com quem se casou em outubro de 1968. Stuart era um destacado militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), uma das mais importantes organizações surgidas durante o regime militar.

Sônia conheceu cedo os impactos da ação repressiva em sua vida e na de seus companheiros. Em 1969, um grupo de estudantes, entre eles Sônia, com apenas 22 anos, preparava-se para realizar panfletagem em portas de fábricas durante atividades de convocação do 1º de Maio, quando foi preso por agentes do famigerado Departamento de Ordem Política Social (Dops).

O argumento usado para justificar a prisão dos jovens foi o Decreto 477, criado pelo então Ministro da Educação, coronel Jarbas Passarinho, para reprimir as atividades das lideranças estudantis nas escolas e universidades. Com isso, Sônia foi sumariamente expulsa da Faculdade Nacional de Economia da UFRJ, onde já cursava o último ano.

Presa por mais de três meses no prédio do Dops, localizado na Rua da Relação, Sônia protagonizou um dos episódios mais ousados dos anos de chumbo, mostrando sua firmeza de jovem militante. Havia sido agendada uma visita do então Secretário de Segurança, o general Luiz de França Oliveira.

Ordenaram que todas as “detentas” ficassem sentadas em círculo e, a partir do apito do carcereiro, levantassem e se colocassem em posição de sentido diante do general. Todas obedeceram às instruções, menos Sônia, que permaneceu no seu lugar.

O general entrou na cela e dirigiu-se a ela, exigindo que cumprisse as determinações: – Levante-se, minha senhora. A senhora está diante de uma autoridade e deve reverenciá-lo. Sônia manteve-se sentada e respondeu com firmeza: Não me levanto pra policial nenhum!

Diante do clima de constrangimento e do receio por parte dos repressores de que aquela atitude contagiasse as demais prisioneiras, os carrascos recuaram e ordenaram que as outras presas sentassem.

Sônia foi julgada e absolvida duas vezes, por unanimidade, pelo Tribunal Superior Militar. No entanto, sua absolvição não significaria liberdade e segurança.

Sônia e Stuart estavam conscientes da realidade cruel que tomava conta do País naqueles anos de escuridão. O aparta-mento do casal, localizado na Rua Pinto de Figueiredo, na Tijuca, tradicional bairro de classe média carioca, fora invadido, revirado, saqueado e destruído pelas forças da repressão e estava sob vigilância constante. Tal situação levou Sônia a tomar todos os cuidados logo após sua saída da prisão no Dops, pois estava ciente de que iriam fazer de tudo para capturá-la novamente.

Alguns dias após sua absolvição da Justiça Militar, um representante do então I Exército (atual Comando Militar do Leste) foi à casa de seus pais, levando uma intimação para que Sônia se apresentasse para prestar depoimento. A intimação não passava de uma manobra dos militares para prendê-la, enquadrá-la em novo processo e, com isso, mantê-la encarcerada.

Como Sônia já havia se juntado a Stuart em lugar ignorado, seu pai, João de Moraes, se prontificou a dar os esclarecimentos em seu lugar. Na saída do quartel, um companheiro de João que estudara com ele na Escola Militar lhe alertou: “Moraes, não deixe sua filha aparecer nunca mais, porque vão matá-la”.

Já eram crescentes as ações armadas em todo o país. Diante da situação, os pais de Sônia e os dirigentes do MR-8 concordaram que seria melhor o exílio voluntário do casal. Mas Stuart, peça-chave da organização, não admitiu deixar seus companheiros e decidiu ficar, não havendo nada que o demovesse de sua posição. Ficou acertado que Sônia seria retirada do País, uma tarefa cada vez mais difícil, devido ao aprofundamento da perseguição política. Coube então à família tratar dos procedimentos para sua retirada.

A saída de Sônia do Brasil foi marcada por muitas dificuldades. Até a chegada na fronteira, a fuga clandestina ocorreu com “relativa normalidade”, apesar de duas revistas minuciosas por patrulhas do Exército, espalhadas pelas estradas na busca desenfreada ao Capitão Carlos Lamarca, embrenhado com seus guerrilheiros nas matas do Vale do Ribeira. No Paraguai, um acidente com o carro deixou-os muito feridos, quase comprometendo a ação, mas a viagem prosseguiu e o embarque para a França aconteceu.

No exílio em Paris, Sônia continuou sua militância. Couberam-lhe as tarefas (exercidas por ela com grande desprendimento), de micro-filmar os materiais enviados pelo MR-8 e dar assistência política e ideológica aos companheiros enviados para fora do Brasil, confortando e apoiando, material e psicologicamente, os que estavam traumatizados pela violência da tortura, da distância do país e da família.

A necessidade de organizar seus companheiros fez com que Sônia se transferisse para Santiago, no Chile. Foi lá que soube da morte de Stuart e das bárbaras circunstâncias do seu assassinato, cometido pela ditadura militar. A notícia deixou-a completamente arrasada e cristalizou ainda mais sua aspiração de retornar ao Brasil.

Para sobreviver, passou a trabalhar como fotógrafa profissional e se ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN), chegando ao Brasil em maio de 1973, aonde encontrou um novo companheiro, Antônio Carlos Bicalho Lana.

Com a “infiltração” de agentes da ditadura, espionando suas atividades, não demorou e a repressão armou uma emboscada para prender Lana e Sônia.

A data exata da prisão nunca foi estabelecida, mas sabe-se que era de manhã quando Antônio Carlos e Sônia pegaram o ônibus da Empresa Zefir com destino a São Paulo.

Vários agentes já estavam dentro do coletivo. Simultaneamente, nas imediações da agência de passagens do Canal 1, em São Vicente, encontravam-se outros policiais à espera que os dois descessem do ônibus para comprar os bilhetes.

Quando lá chegaram, apenas Lana desceu do ônibus. Cinco agentes esperavam dentro da agência e outros chegaram em vários carros. No guichê, o militante entrou em luta corporal com os policiais, mas foi dominado a socos e pontapés, levando uma coronhada de fuzil na boca.

Sônia, ao levantar-se do banco, foi agarrada e levou um pontapé nas costas. Saiu do ônibus algemada pelos pés e foi colocada em um Opala, enquanto Lana foi empurrado para outro carro.

Os dois ainda estavam presos quando a ditadura militar se encarregou de divulgar nos principais órgãos de imprensa que ambos haviam morrido numa troca de tiros em São Paulo. A família de Sônia só pôde descobrir o fato porque sua mãe havia exigido que ela lhe contasse seu nome clandestino: Esmeralda.

O empenho da família, que se dirigiu às pressas até a cidade litorânea de São Vicente, onde residiam Lana e Sônia, na tentativa de resgatar o corpo das vítimas, foi frustrado. O clima de enfrentamento da família Moraes com os militares chegou ao absurdo das ameaças de morte e ao constrangimento da prisão de seu pai.

Posteriormente, após um exaustivo processo de investigação, ficou claro que enquanto João Moraes estava preso, Sônia foi seqüestrada e conduzida para o Rio de Janeiro, onde padeceu monstruosas torturas. Levada de volta a São Paulo, aonde sofreu novas torturas, estupro e seviciamento. Por fim, recebeu um tiro de misericórdia na nuca. Foi no dia 30 de novembro de 1973. Ela tinha 27 anos.

Sonia foi enterrada como indigente no cemitério de Perus e seus restos mortais foram localizados graças aos esforços das entidades que atuam em apoio às famílias de mortos e desaparecidos políticos.

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